Por Harley Dias
Quando Nikolas sai de Minas Gerais e caminha até Brasília, o gesto não pode ser lido como ato impulsivo
ou performance vazia. Trata-se de uma engenharia simbólica cuidadosamente construída. O
deslocamento físico é apenas a superfície visível de uma estratégia mais profunda: a compreensão de
que o poder político não se consolida no destino final, mas no percurso que o antecede.
Essa lógica dialoga diretamente com um princípio central da comunicação contemporânea: as pessoas
não se conectam com o ponto de chegada, mas com a caminhada. É no esforço, no sacrifício e na
coerência do trajeto que se constrói identificação. O percurso humaniza, legitima e produz sentido.
No marketing político, essa dinâmica é fundamental. Campanhas que surgem apenas no momento final
da disputa tendem a soar oportunistas. Já aquelas que constroem presença ao longo do tempo geram
confiança. O voto, nesse contexto, deixa de ser um objetivo explícito e passa a ser uma consequência
simbólica de um processo bem conduzido.
Cada passo da caminhada produz narrativa. Cada parada gera conteúdo. Cada obstáculo enfrentado se
transforma em prova simbólica de propósito. Não se trata apenas de storytelling, mas de storydoing: a
ação concreta se converte em mensagem, e a mensagem se legitima porque nasce da ação.
Sob a ótica da comunicação estratégica, esse tipo de construção ativa identificação emocional antes
mesmo da racional. O eleitor não analisa apenas propostas; ele reconhece trajetórias. Ele não escolhe
apenas resultados; ele escolhe sentidos. A decisão política, portanto, está profundamente ligada à
percepção de coerência entre discurso, ação e percurso.
É nesse ponto que o growth marketing, quando bem aplicado à política, encontra sua forma mais
sofisticada. Ocrescimento não ocorre por imposição de mídia, mas por propagação orgânica. Oconteúdo
nasce do movimento real, não de peças artificiais. A distribuição acontece porque a narrativa se sustenta
sozinha. Cada etapa cria um novo ponto de contato, gerando loops contínuos de atenção e engajamento.
Diferentemente das fórmulas simplificadas frequentemente vendidas no ambiente digital, o growth
político eficaz não depende de atalhos. Ele depende de leitura de cenário, timing, consistência simbólica
e compreensão profunda do comportamento humano. Crescer, nesse contexto, não é gritar mais alto,
mas estar presente de forma estratégica ao longo do caminho.
O eleitor não “compra” a vitória pronta. Ele adere à história que torna aquela vitória legítima. Ele vota
no sentido que reconhece como verdadeiro. Por isso, quem entende marketing político, comunicação e
growth de forma integrada não corre atrás do voto no momento final. Constrói, passo a passo, a estrada
emocional que leva até ele.
Quando o destino é alcançado, a decisão já foi tomada muito antes. O voto apenas acompanha o percurso.
Harley Dias, estrategista político, especialista em Comunicação eMarketing Político. Bacharel em Design, MBA em Marketing
Político, especialista em Marketing Digital e mestrando em Comunicação pela Universidad Europea del Atlántico (Espanha).
Mais de 25 anos de atuação em campanhas institucionais e eleitorais.



